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27 de dez. de 2012

Cruise review: Polar Pioneer, Aurora Expeditions

O navio ancorado em Ushuaia
 O Polar Pioneer, da australiana Aurora Expeditions, é o menor navio que opera viagens à Antártida - ao longo do ano, ele se divide o ano entre as viagens antárticas e árticas, de acordo com o "verão" de cada pólo. Se, por um lado, assim como acontece nos aviões, num navio pequeno a gente acaba sentindo um pouco mais o balanço do mar, por outro, um navio pequeno garante maior interação entre os poucos passageiros (cerca de 50) à bordo e também experiências que sejam, de fato, aproveitadas coletivamente (garantia de todos os desembarques e visitas serem feitos por todos).
Um dos raros momentos do refeitório completamente vazio
 Foi por isso mesmo que esse foi um dos navios em cujas listas de espera me inscrevi para essa viagem e fiquei muito feliz com minha vaguinha de última hora. Já confessei aqui que, ao vê-lo no porto de Ushuaia pela primeira vez, me surpreendi ao vê-lo ainda menor do que imaginava; mas também já contei que ele se mostrou fortão e adequado durante toda a viagem.
O cantinho do café (café, chás, biscoitos e frutas) disponível for free 24h
 Os roteiros da Aurora (esse valia perto de US$8mil pp em cabine dupla com banheiro privativo e paguei outros US$600 pela passagem aérea ida e volta - GRU/EZE/USH-PUQ/SCL/GRU - direto no site da Lan) são sempre zero luxo, full expedição. Tudo é muito informal à bordo, em todos os sentidos. Seus navios mantêm o mesmo jeitão dos navios de expedição e pesquisa que um dia foram (utiliza sempre navios que já exerceram essa função em décadas anteriores): refeitórios simples, de mesas comunais, no lugar de restaurante; cabines com duas camas pequenas ou beliches; banheiros pequenos, com zero glamour; comida caseira e nada de serviço de cabine.
A minha cabine (no canto direito, depois da mesinha e do armário, ficava a outra cama) ...
...e a minha cama em close
As cabines eram quase todas duplas - apenas duas eram triplas. O banheiro era bem pequeno e com cortinas ao invés de box, uma pena; por outro lado, a maneira como foi bolado é de fácil limpeza e manutenção (a camareira tirava esse emborrachado do piso todos os dias para lavar). A cabine, ainda que simples e de cama pequena (eu sou baixinha, mas os altos devem ter mais problemas), tem bastante espaço, com armários separados para cada passageiro, janelinha, duas prateleiras e mesa de trabalho - inclusive um cantinho para malas onde cabem até malas bem grandonas. Algumas cabines (as mais baratas) são do tipo "sharing facilities" e, por isso mesmo, têm só pia dentro do quarto - vaso e ducha são compartilhados com outros passageiros que tenham escolhido o mesmo tipo de cabine.
O banheiro: a parte da cabine que eu não gostei
 A parte boa, em qualquer tipo de cabine, é que se você assinalar que topa dividir a cabine ao fazer a reserva como solo traveler você não paga single supplement - tremeeeeeenda mão na roda para muita gente, já que meu cruzeiro tinha solo travelers em número quase igual aos passageiros acompanhados. Só não gostei que lençóis e toalhas só foram trocados uma vez durante a viagem.
Boas-vindas aos passageiros: mug térmica para a viagem e crachá para usar nos primeiros dias
 O cuidado ambiental deles foi o que mais me atraiu na companhia, recomendada por uma amiga inglesa. O pessoal das reservas foi bem paciente e didático, mesmo na correria que foi minha efetivação da viagem, e me enviaram inúmeros PDFs explicando como seria a viagem, o que levar, que cuidados ambientais tomar etc. À bordo, os guias realmente fiscalizam o tempo todo se estamos limpando as botas ao entrar e ao sair dos zodiacs, se limpamos as roupas antes do primeiro desembarque, por onde andamos no continente etc.
Uma das palestras que tivemos à bordo...
... e a ponte de comando, sempre aberta aos passageiros (e super frequentada por eles dia e noite, btw)
 Os guias e demais membros do staff foram todos ótimos, muito bem humorados e cuidadosos, aliás - embarques e desembarques sempre super pontuais, muita informação o tempo todo, e nada em excesso.
Já tripulação (marinheiros, garçonetes, camareiros etc) deixa a desejar: faziam o necessário e ponto; não sorriam quase nunca (depois me disseram que é algo muito comum aos russos mesmo essa sisudez), eram muito pouco solícitos com os passageiros e o serviço no restaurante era sempre bem abrutalhado. Quem está acostumado com os geniais filipinos e indianos tão comuns em outros navios, estranha mesmo.
Movimento no bar para o "ponche" de boas vindas
 A comida é excessivamente caseira, de prato único e sem opção de escolha, servida sempre em refratários grandes nas mesas para que cada um se servisse. Já as sobremesas (existentes única e exclusivamente no jantar) essas sim eram excelentes - a sub-chef era especialista em patisserie, então entendia mesmo do riscado. Água (filtrada), café e chá incluídos 24h; todas as outras bebidas cobradas à parte.
Embarques e desembarques sempre cuidadosos...
.... e passeios bem seguros
 O que faltou, na minha opinião, foi uma pouquinho mais de entretenimento, sobretudo nos dias do Drake; tinhamos palestras e tal, mas acho que seria legal incluir algo mais lúdico (como o pessoal dos Cruceros Australis faz, por exemplo) para ajudar o tempo numa travessia mais complicada passar de maneira mais agradável.  Mas, no geral, eu gostei da experiência  e certamente a repetiria; aliás, conheci à bordo tantos passageiros que já tinham viajado com eles pelo Ártico que estou seriamente considerando fazê-lo com a mesma companhia em uns dois anos.
O staff (guias, diretor de hotel e médico) gracinha da viagem...
... e a turma da cozinha, num raro momento de sorrisos
Histórias, causos, a rotina a bordo, fotinhos e todos os passeios que eu fiz durante essa viagem vocês encontram nesse link aqui.

21 de dez. de 2012

Antártida: bela manhã em Port Lockroy e Jougla Point

O mapa rabiscado com o que já tinhamos percorrido do continente antártico até aquela manhã 
 Tive exatamente uma hora de sono entre voltar para o navio depois do camping no gelo e tomar o café da manhã para já sair em seguida para o desembarque em Port Lockroy. Essa é uma das escalas mais esperadas por quem viaja à Antártida. Primeiro, porque a localização da base inglesa no continente gelado aparece em vários livros sobre o destino; e, segundo, e talvez mais levado em consideração pela maioria dos viajantes, porque lá fica o principal posto dos correios do fim do mundo ;)
 Descemos do zodiac em meio a pedras e neve, numa subida curtíssima, mas não das mais simples justamente pela combinação desses dois elementos (fico impressionada como a terceira idade lida bem demais com esses lugares!), até chegar à simpática casinha-sede aberta aos visitantes. Os "correios" estão simbolizados por uma mera caixinha postal - a clássica, vermelhinha, com o emblema da rainha britânica.
 Postais (caros, mas muito mais baratos que no navio, btw, humpf!) e selos (pelo preço ultra razoável de um dólar para qualquer lugar do mundo) estão à venda numa micro loja, junto com pelúcias de pinguins, chaveiros e ímas de geladeira suuuuper overpriced. Quase todos os passageiros foram ali deixar seus postais - que vão até a Inglaterra, offcoursemente, antes de seguir para seu destino no mundo. Uma pena que a tosca que vos escreve esqueceu de anotar os endereços dos amigos; sem internet no barco, receberão postais praticamente os únicos endereços que eu sei de cabeça: o meu e o da minha mãe. Sorry, folks :(
Flo e Kath, duas dos quatro jovens que mantém a base nos quatro meses de "verão" 
 Mas, gafes à parte, muito mais interessante que o postinho dos correios é o museu que foi criado ali. Mantido por quatro jovens que vivem juntos por quatro meses ali na base (dormindo juntos num mesmo quartinho apertado e tomando banho "de cortesia" nos navios que visitam a base o.O ), o museu reproduz fielmente como era a primeira casa da base, quando chegaram os primeiros exploradores britânicos para se estabelecer na área.
 Uma riqueza de detalhes - com trilha sonora e tudo - impressionante e emocionante; ali a gente se arrepende até de ter reclamado dos chacoalhos do Drake.



Esse lindo funciona!!!


 Ao redor da casa, uma colônia de pinguins faz a festa, vivendo entre ali e a ilhota vizinha de Jougla Point, que alcançamos em cinco minutinhos de zodiac. Jougla Point, além da colônia de pinguins que ali vivem e da visita periódica que recebe de aves e focas, ficou famosa entre navegadores pela ossada gigante de baleia que exibe (e cujas fotos, não me perguntem como, eu perdi, grrrrrrr).




Papai Noel passou também pelo Pólo Sul??

Os "kayakers" flagrados, minúsculos diante do glaciar, na volta ao Polar Pioneer 
A manhã estava linda novamente e esse terceiro dia no continente antártico prometia ser praticamente tão bom quanto o anterior. Deixei Jougla Point com o pensamento firme na minha caminha e em como seria reconfortante tirar um cochilinho antes do chamado para o almoço.
Tsc, tsc. Sonho meu.

20 de dez. de 2012

Antártida: noite de acampamento

 O dia tinha sido espetacular (sorry, mas realmente não tem palavra melhor que essa para descrevê-lo; desculpem a insistência). Desde cedo sabíamos que o night camping em Paradise Harbour estava praticamente confirmado porque a previsão do tempo era mesmo muito boa para o dia todo (e se confirmou). A lista de quem queria participar (sem custo extra, é claro), afixada na lousa branca ao lado do refeitório, estava enorme durante o dia.
 Mas quando voltamos do cruzeirinho de zodiac por Paradise Harbour, lá pelas 23h30, e fomos avisados que, quem fosse participar do camping tinha só 10 minutinhos para fazer xixi e pegar nossas cositas, muita gente desistiu.  Apesar da noite linda, céu azul e solão, fazia um frio danado lá fora. E tinhamos sido informados no jantar que era camping "de raiz", só com saco de dormir, nada de barraquinhas ou facilities.
Cerca de vinte de nós continuamos firmes e fortes na ideia. Well, veja bem - eu nunca tinha acampado na minha vida antes. Tentei, mas não rolou. Vocês sabem, eu sou fresca pra caramba no quesito cama e banheiro. Mas, veja bem outra vez, eu estava na Antártida. O dia tinha sido lindo. O sol tava lá fora em plena noite. E íamos acampar num iceberg. Sem falar que nem seria por muito tempo: às 5h30 da matina tinhamos que voltar para o barco para deixarmos Paradise Harbour (existem várias regulamentações de horários lá para que nunca dois navios aportem no mesmo lugar) pontualmente às 6h.  Eu não perderia isso por NADA.
Cavar sua própria cama na neve é a primeira tarefa 
 A despedida dos passageiros que ficavam para dormir no navio foi engraçada, com vários nos abraçando e dizendo "foi bom ter te conhecido" e outras cositas do gênero. Fomos levados nos zodiacs até um placa de gelo arredondada, densa como uma ilhota. Ao desembarcamos, o comando: "encontrem um bom lugar e façam uma cama no gelo". "Cavamos" nossas próprias camas com os pés nas neves, recebemos nossos sacos de dormir e... voilá!


Tinha gente vestindo praticamente tudo que tinha levado na mala. Eu fui vestindo praticamente a mesma combinação de camadas que usei todos os dias - só tive o cuidado de colocar um par de meias a mais e levar as luvas de neve, que eu não tinha usado ainda (uso sempre as com os dedos cortadinhos pra poder fotografr ;D). E coloquei também um gorrinho pela única vez por lá, pra proteger bem a cabeça do frio.

Ahá! para os incrédulos testemunharem :))))
 Mas ó... fazia frio pra caramba. Muito. Muitão. Eu bem que tentei me ajeitar naquele sleeping bag, mas a minha "cama" esculpida na neve era dura pra cacildis. E meus pés mezzo que congelaram. Foi assim, digamos, a primeira vez que euzinha, #winteraddicted, não achei o frio "gostosinho" :)))))
 Curiosamente, algumas pessoas realmente dormiram, e muito rápido até. Se enfiarem nos seus sacos de dormir, subiram o zíper e zás! dormidos. Então nem rolou ficar de papinho, porque tinha que fazer silêncio. Mas eu não consegui dormir, não.


 Quando eu estive nos fiordes norugueses, em 2008, quando começava o sol da meia-noite, passei por cinco dias insones enquanto fazia um cruzeiro - era tudo tão lindo, e com só duas horas de escuridão do lado de fora, que eu ficava acordada simplesmente para não perder nadinha. Lá na Antártida, agora, não rolava nunca, nem por cinco minutinhos, céu escuro - a gente tinha céu azul e solzinho o tempo todo - e nesse horario "noturno", tipo da meia-noite às 4h, ficava com aquela cor rosadinha, tipo #pinksky de final de tarde, sabe? Uma lindeza.
Room with a view :)))))))
Então eu passei o tempo, assim como outros passageiros insones no nosso "camping", vendo a paisagem e tirando umas fotinhos, entre um bater de dentes e outro. Lá  pelas duas e meia da manhã, pinguins que antes dormiam num dos cantos do iceberg caminharam entre nós. E vez ou outra um dos homens levantava - acredite - para fazer um xixi antártico o.O

 Pouco antes das cinco, o subir da âncora do navio, láaaaaaa longe, despertou os que dormiam - alguns profundamente, coisa mó impressionante. Recolhemos acampamento e ficamos esperando os zodiacs voltarem para nos buscarem. Ninguém falava muito. Continuava frio. Mas não me arrependi não, nem um tico. Camping não é minha praia. Só que, pô, camping na Antártida, né? ;)

Levantando acampamento
A minha mochila LITERALMENTE congelada quando deixávamos o camping. Tá bom procêis? :P 
Na volta ao navio, fomos direto pras cabines que os outros passageiros ainda estavam, obviamente, dormindo (nossos chamados para o café da manhã eram só lá pelas sete). Foi a primeira vez na viagem que eu perdi o morning call para ver baleias; levantei só na hora do café mesmo, pouco mais de uma hora de ter chegado ao Polar Pioneer. Sorry. Mas é que a minha cama nunca tinha parecido tão gostosa antes, nem tão quentinha.